"Eu sou aquilo que existe entre o que eu quis ser... e o que fizeram de mim". - Fernando Pessoa
___________________
A internet, redes sociais, a cada momento nos surpreendem. Vez ou outra capturo falas e, me envolvo em conjecturas, reflexões e linhas.
Sempre os encontros com Fernando Pessoa me torna reflexiva. Neste agora, remeteu-me aos questionares em sala de aula, quando exortava os jovens aprendizes a dissertarem sobre si, mediante a pergunta, bem o sei de difícil resposta - quem sou eu?
Através dos desvios de olhares, silêncios duradouros, me devolviam a pergunta:
- "e a sra. quem é?".
A partir daí, mantínhamos diálogos envolventes e nos desmanchávamos em questões sobre nossa identidade, sobre a marca que poderíamos deixar, entre o que estávamos pretendendo nos tornar.
Ainda hoje essa questão me é de real importância e vem Fernando Pessoa exprimir tudo aquilo que, muitos de nós ainda questionamos:
- quem sou eu? o que fui? o que me tornei? se quis algo diferente do que sou agora!
Enfim... minha memória viaja e encontra uma das Feiras de Livros em Ribeirão Preto, quando minha formação me levava à criação de bibliotecas, dentro de um projeto ousado da Secretaria da Cultura.
O cenário convidativo, barracas, música pelo ar, atividades acontecendo em todos os cantos da praça, eu percorria os estandes na seleção e compra de livros, os quais viriam a formar acervos para as bibliotecas em formação, eis que uma livreira, amiga, ao ver minha atuação entre livros, questiona sobre minha profissão Bibliotecária e o porquê da escolha.
Por um momento parei pensativa e não me roguei em dizer que poderia me expressar através de três pilares: opção, paixão, convicção. Logo em seguida discorri sobre esses.
Opção - pois pensara em outras profissões, tais como direito - primeira opção - letras, e outras a que um jovem se vê envolvido entre tantas opções;
Paixão - a faculdade de biblioteconomia, que não estava em meu projeto profissional, adentrou meu caminho, me encontrou e capturou meu sentir estudante com vistas ao profissionalismo. Assim, a paixão logo me encontrou e passei a curtir todos os momentos, matérias, professores os quais se tornaram ícones para meu caminhar;
Convicção - decorridos os anos, entre matérias técnicas, estágios, amplo conhecimento de organização, percebi que era convicta bibliotecária. A profissão estava a preencher todas minhas necessidades - financeiras, emocionais, além do que me realizava, fazia-me crescer em conhecimento, alargava horizontes, proporcionava-me a convicção de que fora ela, a biblioteconomia, que me encontrara, me formara e me tornara. Ademais, nossa professora dona Carminda exortava que o "bibliotecário não tinha futuro, mas era o próprio futuro", fala essa que me acompanhou vida afora e me tornou, cada dia mais convicta do encontro entre a jovem e a profissão.
Agora, vem Fernando Pessoa a se expressar de maneira brilhante, como todo o legado que nos proporcionou, de que sua existência tornou-se mescla entre o querer e o vir a ser.
Pois então, a biblioteconomia e documentação, alargou minhas possibilidades. Pude adentrar o universo da organização de livros, dispostos em estantes, tecnicamente trabalhados, ao mesmo tempo em que documentos passavam por minhas mãos através de criteriosa seleção e se deixavam disponíveis em arquivos criteriosamente preparados. Era a profissional bibliotecária/documentalista que não se intimidava ante os desafios que a buscavam.
A possibilidade de estar secretariando executivos encontrou fácil acesso ante a formação que me permiti, além do que assessorias diversas para criação de bibliotecas e centro documental; acima de tudo, o poder participar de congressos, estudos complementares, leituras inúmeras, estendiam as salas de aulas, proporcionavam encontros entre colegas de ária, ainda que a frustração pudesse, em algum momento, me desviar do caminho, dado dificuldades decorrentes de fatores vários, como o desconhecimento por quem está fora do conhecimento, salários aquém do desejável e outros, enfim, o desejo imenso em tornar a área vibrante em suas modalidades, jamais foi obstáculo para me desviar da minha primeira paixão - a Biblioteconomia.
Também, mediante acesso a internet, o desenvolver textos, percorrer a galaxia, tornarem-se visíveis, influenciarem outros tantos profissionais, é uma das prerrogativas da área. Todavia, o único ponto em aberto é a editoração de um livro próprio, muito embora os blogs se tornam meus apoios quanto a escrita e, por meio deles, posso me exercitar na escrita e, se por ventura a editoração não acontecer, a satisfação de poder estar percorrendo estas linhas, já me trouxe realização.
Não obstante, salas de aulas dentro de um projeto de jovens aprendizes, corroborou para que a profissão encontrada décadas antes pode fechar com chave de ouro minha jornada entre livros.
Assim, hoje sou convicta em dizer que sou o que realmente a profissão fez de mim - bibliotecária por muitas razões para o ser:
Primeiro porque entre livros nasci - meu pai historiador, detentor de obras publicadas sobre vultos, fatos e história, foi e continua sendo minha grande inspiração;
Segundo que entre livros me criei - em nossa casa acostumei-me a biblioteca que possuíamos e, era eu, em minha adolescência, quem organizava e, sem o saber, nascia ali a formação que, anos depois, me encontraria;
Terceiro que entre livros me formei - leitora perspicaz, leituras me acompanhavam em qualquer situação;
Quarto digo que entre livros me tornei, pois enquanto lia o livro, sentia que o livro estava sempre a me ler.
Quinto que não consigo separar o livro desta que me tornei... assim, digo que o livro sou eu.
E se eu pudesse escolher meu epitáfio, este seria:
Entre livros nasci. Entre livros me criei. Entre livros me formei. Entre livros me tornei.
Enquanto lia o livro, lia-me, a mim, o livro. Hoje não há como separar: o livro sou eu
- Bibliotecária e Documentalista por opção, por paixão, por formação, por convicção.
Escritora por inspiração.
Inajá Martins de Almeida

















