terça-feira, 7 de julho de 2026

QUEM SOU EU?

 "Eu sou aquilo que existe entre o que eu quis ser... e o que fizeram de mim". - Fernando Pessoa

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A internet, redes sociais, a cada momento me surpreendem. Vez ou outra capturo falas e, me envolvo em conjecturas, reflexões e linhas. 

Sempre os encontros com Fernando Pessoa me torna reflexiva. Neste agora, remeteu-me aos questionares em sala de aula, quando exortava os jovens aprendizes a dissertarem sobre si, mediante a pergunta, bem o sei de difícil resposta - quem sou eu?

Através dos desvios de olhares, silêncios duradouros, me devolviam a pergunta: 

- "E a sra. quem é?". 

A partir daí, mantínhamos diálogos envolventes e nos  desmanchávamos em questões sobre nossa identidade, sobre a marca que poderíamos deixar, entre o que estávamos pretendendo nos tornar.  

Ainda hoje essa questão me é de real importância e vem Fernando Pessoa exprimir tudo aquilo que, muitos de nós ainda questionamos: 

- Quem sou eu? O que fui? O que me tornei? O que me tornaram? Quis ser algo diferente do que sou agora!

Enfim... minha memória viaja décadas e encontra uma das Feiras de Livros em Ribeirão Preto, quando minha formação me levava à criação de bibliotecas, dentro de um projeto ousado da Secretaria da Cultura.  

O cenário convidativo, barracas, música pelo ar, atividades acontecendo em todos os cantos da praça, eu percorrer os estandes na seleção e compra de livros, os quais viriam a compor acervo para  as bibliotecas que se formavam, quando uma livreira, ao ver minha atuação entre livros, passa a questionar minha profissão Bibliotecária e o porquê da escolha.

Por um momento parei pensativa e não me roguei em dizer que poderia me expressar através de três pilares: opção, paixão, convicção. Logo em seguida discorri sobre esses.


Opção - primeiramente o direito, mantinha-se forte seguida pela área das letras, daí a cidade me apontava e me favorecia o não sair de casa, era então a Biblioteconomia e Documentação mais viável tanto quanto aos custos e família; 


Paixão -
 a faculdade de biblioteconomia, que não estava em meu projeto profissional, adentrou meu caminho, me encontrou e capturou meu sentir estudante com vistas ao profissionalismo. Assim, a paixão logo me encantou e passei a curtir todos os momentos, matérias, professores os quais se tornaram ícones para meu caminhar;

Convicção - decorridos os anos, entre matérias técnicas, estágios, amplo conhecimento de organização, percebi que era convicta bibliotecária. A profissão estava a preencher todas minhas necessidades - financeiras, emocionais, além do que me realizava, fazia-me crescer em conhecimento, alargava horizontes, proporcionava-me a convicção de que fora ela, a biblioteconomia, que me encontrara, me formara e me tornara. Ademais, nossa professora dona Carminda exortava que o "bibliotecário não tinha futuro, mas era o próprio futuro", fala essa que me acompanhou vida afora e me tornou, cada dia mais convicta do encontro entre a jovem e a profissão. 

Agora, vem Fernando Pessoa a se expressar de maneira brilhante, como todo o legado que nos proporciona, de que sua existência tornou-se mescla entre o querer e o vir a ser.

Pois então, a biblioteconomia e documentação, alargou minhas possibilidades. Pude adentrar o universo da organização de livros, dispostos em estantes, tecnicamente trabalhados, ao mesmo tempo em que ao me envolver com documentos, pouco a pouco sendo criteriosamente preparados e dispostos em arquivos, davam a satisfação plena de que a  a profissional bibliotecária/documentalista não se intimidava ante os desafios que a buscavam.

Também a possibilidade de estar secretariando executivos encontrou fácil acesso ante a formação que me permiti, além do que assessorar criação de bibliotecas e centros de documentação, era motivo de me sentir praticando o ensinamento que me foi transmitido em várias vertentes; acima de tudo, o poder participar de congressos, estudos complementares, leituras inúmeras, proporcionavam encontros entre colegas de área, ainda que a frustração pudesse, em algum momento, me desviar do caminho, dado dificuldades decorrentes de fatores vários, como o desconhecimento por quem está fora do conhecimento, salários aquém do desejável e outros, enfim, o desejo imenso em tornar a área vibrante em suas modalidades, jamais foi obstáculo para me desviar da minha primeira paixão - a Biblioteconomia.

Também, mediante acesso a internet, o desenvolver textos, percorrer a galaxia, tornarem-se visíveis, influenciarem outros tantos profissionais, não se distanciou da área das letras, aquela proposta inicial de juventude. 

Gradativamente, a leitura ia me levando para o caminho da escrita também. Todavia, o único ponto em aberto é a editoração de um livro próprio, muito embora os blogs se tornem meus apoios quanto a escrita e, por meio deles, posso me exercitar na escrita e, se por ventura a editoração não acontecer, a satisfação de poder estar percorrendo estas linhas, já me trouxe realização. 

Não obstante, salas de aulas dentro de um projeto de jovens aprendizes, corroborou para que a profissão encontrada décadas antes pudesse fechar com chave de ouro minha jornada entre livros.

Assim, hoje sou convicta em dizer que sou o que realmente a profissão fez de mim - bibliotecária por muitas razões para o ser:

Primeiro porque entre livros nasci - meu pai historiador, detentor de obras publicadas sobre vultos, fatos e história, foi e continua sendo minha grande inspiração;

Segundo que entre livros me criei - em nossa casa acostumei-me a biblioteca que possuíamos e, era eu, em minha adolescência, quem organizava e, sem o saber, nascia ali a formação que, anos depois, me encontraria;

Terceiro que entre livros me formei - leitora perspicaz, leituras me acompanhavam em qualquer situação;    

Quarto digo que entre livros me tornei, pois enquanto lia o livro, sentia que o livro estava sempre a me ler. 

Quinto que não consigo separar o livro desta que me tornei... assim, digo que o livro sou eu.

Sexto que a escrita também me proporcionou a possibilidade de me tornar escritora

E se eu pudesse escolher meu epitáfio, este seria:


Entre livros nasci. Entre livros me criei. Entre livros me formei. Entre livros me tornei. 

Enquanto lia o livro, lia-me, a mim, o livro. Hoje não há como separar: o livro sou eu 

- Bibliotecária e Documentalista por opção, por paixão, por formação, por convicção. 

Escritora por inspiração. 


Inajá Martins de Almeida


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